Publicado no Blog Ubatuba Víbora
Coluna do Celsinho
6 de setembro de 2013
Em Brasília, o Ricardo Pimentel cismou com o meu sapato.
Não tiro a sua razão.
Admito: dentre os meus muitos defeitos, peco na embalagem.
Caminhando para a quinta década, já era hora de zelar por minha imagem.
Por isso, aceitei resignado a observação e subi ao trono do engraxate, instalado num centro comercial brasiliense, próximo ao hotel.
Graxa, claro!
Não espere que eu mude os meus hábitos a toque de caixa.
Para que comprar um sapato novo, se com cincão eu garanto o lustre do velho pisante?
Paciência, Ricardo...
Enquanto a escova cantava, um jovem com um copo de cachaça se aproximou.
Puxou conversa, mostrou desenvoltura e domínio de conteúdo, revelando que tinha largado o curso de História.
Questionador, anunciou a insatisfação com o mundo e que não via perspectivas, pois o "sistema" ditava as normas.
E encerrou o assunto pedindo uns trocados.
Lembrei dos discursos que ouvia nos meus tempos de estudante e de como me libertei de pensamentos dessa natureza.
Aquele moço, porém, desorientado, estava nitidamente desistindo de integrar a sociedade.
Neguei a esmola e disse que, com a sua inteligência, era um desperdício não voltar aos estudos.
Com o conhecimento e a capacidade de expressão que demonstrou, poderia exercer a cidadania e contribuir para despertá-la em muitos jovens com as mesmas angústias que hoje o atormentam.
Ele agradeceu mas não largou o copo.
Paguei o engraxate e voltamos ao hotel acolhedor.
Fixei o olhar no brilho dos sapatos.
Foi inevitável a recaída.
Há muito mais com o que se preocupar.
Juventude transviada
Luiz Melodia